#4 Que lugar para África na cena artística portuguesa?

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Janela n°4 - Diasporas africanas em Portugal, parte n 3 : culturas e expressão artística
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Marta Lança, que lançou em 2010 o site Buala (1), portal de reflexão, crítica e documentação sobre as culturas africanas contemporâneas, responde às nossas perguntas sobre o lugar das artes africanas em Portugal.

De quando data a presença de uma cena artística africana em Portugal? Quais as evoluções desta cena nos últimos 20 anos?

Marta Lança : Para começar não me parece que haja propriamente uma cena artística africana em Portugal. Há algumas intervenções, promovidas sobretudo por agentes culturais portugueses (e alguns africanos, sobretudo angolanos), na música, cinema, artes plástica, teatro, mas não consistiu nenhuma « cena artística ».
Mas é uma aparição bastante recente e com um grande atraso em relação a outros países. Na década de 80 houve uma grande amnésia, não se falava muito sobre África, ainda na ressaca de descolonização. Já em França, com a exposição Les Magiciens de la Terre esse ia fazendo uma abordagem aos estudos de cultura e pós-coloniais. Em Portugal essas grelhas de leitura só começam a surgir nos anos 1990 por via da arte e da academia. A pouca alusão a estas questões prendia-se à história mal-resolvida de uma descolonização tardia, dos portugueses emocionalmente ligados a África mas traumatizados. As universidades tinham uma abordagem muito etnocêntrica e por isso não se esperava que chamassem muito a atenção para a arte. A própria situação das comunidades imigrantes ainda era muito pouco reconhecida nem reivindicativa em termos identitários, viviam muito isoladas e sofrendo de racismo e ressentimento dos portugueses. Não havia uma comunidade africana em Portugal que se assumisse e explicitasse como massa crítica e artística.
Em termos de programação artística penso que a Culturgest terá sido pioneira (começa em 1992), a trazer questões de interculturalidade. Partiu muito por iniciativa de alguns programadores em especial derem visibilidade a arte não ocidental nem folclórica. No início era uma programação de risco e minoritária. Em 1995, houve na Culturgest, organizado por António Pinto Ribeiro e António Loja Neves, o primeiro grande ciclo de cinema de África, com 114 filmes, desde os primórdios aos mais actuais e não atraiu muito público. Explica a programador « no imaginário das pessoas África correspondia, para uma determinada comunidade magoada e traumatizada, a alguma coisa que não estavam interessados em reviver; para outros, por manifesta ignorância, a amadorismo – de África não esperavam grande coisa. Havia preconceitos e falta de práticas que inibiam a adesão. »
Nos últimos 15 anos consolidou-se a investigação sobre o período colonial, das ciências sociais às artes. Com uma programação continuada no Programa Próximo Futuro da Fundação Gulbenkian (por António Pinto Ribeiro), o Festival Alkantara, pessoas como Mark Deputter, programador do projecto « Dançar o que é Nosso, Danças na Cidade » e muito por via da música, como o Festival África (programado por Paula Nascimento).
À medida que foi havendo mais produção cultural nos países africanos de língua portuguesa e mais circulação por cá, foi inevitavelmente ganhando visibilidade. Mas estamos ainda mergulhados em muitas limitações e preconceitos.

As expressões artísticas de Africa contemporânea encontram espaço no país? Ou África é ainda representada principalmente através das culturas tradicionais?

M. L. : Da parte das culturas tradicionais sei pouco. Acho que são vividas recriadas nalgumas comunidades. Há a gastronomia tradicional de cada país, os grupos de batucadeiras cabo-verdianas, as danças guineenses. Muita kizomba, muito zouk, muito kuduro, enfim todas as modas da cultura popular são vividas e nao só pela população de origem africana como por muitos portugueses brancos. Igualmente começa a ganhar terreno algum interesse pelas linguagens mais contemporâneas e não expectáveis no habitual imaginário africanista.
Aliás, o meio da arte contemporânea talvez seja o que mostre mais interesse e abertura, sempre na sede de novidades de tendências. No início a maioria das abordagens ia de encontro a um espírito que cristalizou uma ideia de arte africana, tradicional e ao gosto dos africanistas. Ou para satisfazer um mercado ávido de naif e novos primitivismos, bastante condescendente e que sobrevaloriza os contextos dos artistas em relação à sua arte. De vez em quando há iniciativas que reflectem uma visão contemporânea e introduzem uma série de questões ligadas às teorias pós-coloniais, mas colocam sempre o enfoque na tal devolução da imagem  de um centro: os vestígios dos portugueses em África, ou como os africanos veem os portugueses cá, ou os descendentes de colonizados descobrem as suas origens, etc.
A partir de 2008 assistiu-se a uma certa « histeria » até, mas é típico num meio tão pequeno como o português, como lembrou o artista Gonçalo Pena. Começou a chegar a possibilidade de termos finalmente alguma reflexão pós-colonial em Portugal. Inicialmente proveio de trabalhos de um pequeno grupo de artistas contemporâneos angolanos que vivem ou passam por Lisboa, aos quais lhes foram instituídos muitos critérios identitários para a definição da africanidade de uns ou recusa da mesma por outros. Mas acho que os próprios artistas conseguiram superar essa barreira e ir descobrindo o seu estilo e questões sem estarem só presos à maneira como são « lidos ».
A teoria pós-colonial em Portugal é urgente e tardava achegar, um discurso que quer avaliar as relações de africa com a europa, ex-colónias com o ex-poder colonial mas parece que feita assim uma transição súbita sem reflexão, e mais por agendas exteriores, sem um debate profundo e alargado, parece que coloca nos artistas um discurso que eles próprios não o criaram, tentando adaptar-se às expectativas e ao mercado. No início parecia viver-se este fenómeno com uma certa desonestidade, acho que agora está mais contrabalançado.
Os poucos eventos que passam à margem da aglomeração lusófona vêm do Programa Próximo Futuro, do Festival Alkantara, de algumas iniciativas do Africa.Cont e de estruturas pequenas.

As expressões artísticas e culturais africanas são integradas em vários eventos artísticos do país, ou são reagrupadas em torno de festivais, lugares ou eventos especificamente dedicados a África?

M. L. :É preciso tentar evitar qualquer tipo de gueto, de nichos discriminatórios, colocando a arte africana como uma coisa à parte. Apesar de dever estar presente a obrigação de não ser condescendente, também é preciso ter em conta que os modos de produção são outros, muitas vezes muito amadores e informais e é justo integrar as obras nos seus contextos.
Mas a participação de africanos ainda são muito agrupadas em festivais ou eventos ligados à mercantilização da diferença, às vezes muito pouco verdadeiramente interculturais.

Quais são as disciplinas artísticas africanas melhor representadas em Portugal: cinema, música, teatro, dança, literatura, artes plásticas?

M. L. :Acho que a música. O « espaço lusófono » aqui faz algum sentido uma vez que, desde o séc. XV, tem sido um elemento de fortes trocas culturais percebendo-se a saudável contaminação dos ritmos e conhecimento das origens da música nos vários países de língua portuguesa. Exemplos: o fado que é da família do lundum e da morna; a curiosidade dos cantautores de intervenção portugueses pelas sonoridades da música africana e brasileira; a partir dos anos 90, a alavanca de projectos como Rap Mania ou Kussondolola (que fez a ponte com África na cultura jovem) e, hoje em dia, inúmeras bandas de fusão. A música que circula na cultura urbana recupera o semba, mornas, e apresenta imensos pontos de contacto entre as várias culturas.
Apesar da lusofonia musical ser uma realidade constatada, mais uma vez o próprio projecto lusófono se desintegra na prática. As produtoras portuguesas andam a dormir. No filme Lusofonia, Sons da (R)evolução os músicos e agentes musicais lamentam a falta de investimento nacional e terem de recorrer a editoras não portuguesas (sobretudo francesas e holandesas, no caso das cantoras Lura, Cesária Évora, Sara Tavares, Mariza) com melhores condições, da gravação à promoção passando pelos prémios. As editoras portuguesas estão desatentas à fonte inesgotável de boa música da noite afro-lisboeta, não acreditam e não cuidam do seu ‘património linguístico’ – a música em língua portuguesa ou crioulo em muitos casos – como mercado de confluência de culturas. Por complexos, falta de visão? De vez em quando há incríveis fenómenos como o kuduro progressivo, caso dos Buraka Som Sistema. A Editora Príncipe também faz um trabalho increivel, em termos de novas vozes e novos soms (2). Nos últimos anos muitos músicos de vários países africanos passam por Lisboa e coproduzem trabalhos etc.

Como é a recepção do público português das obras africanas? Este publico é vasto, ou trata-se essencialmente de um publico especializado?

M. L. :Depende do que estamos a falar. Há um publico especializado que vai aos espetáculos e as conferencias, pessoas que se interessam por estudos africanos ou pós-coloniais. Mas começa a haver um interesse mais alargado. Com as dinâmicas da globalização, com as dinâmicas culturais de Portugal, com as mudanças no mundo. O estatuto que a música africana, mais ou menos electrónica mais ou menos revivalista, tem nas agendas da dança e djs é um fenómeno impressionante. Isso teve uma importância enorme na captação de novos públicos. Capaz de conciliar modernidade com África.

Os portugueses de origem africana são mais receptivos às artes vindas de África do que os outros portugueses?
M. L. :É normal que haja mais interesse por relações de afecto.

Existe uma grande diferença de abordagem das culturas africanas entre as grandes cidades do país ou as zonas mais isoladas?

M. L. :Acho que é quase tudo concentrado em Lisboa, muito pouco no resto do país. Fora de Lisboa só chegam coisas pontuais e ligadas a festivais de Músicas do Mundo ou assim, como o Festival de Sines ou de Loulé.

Assiste-se a colaborações entre artistas africanos de passagem, artistas africanos residentes em Portugal e artistas africanos de ascendência africana? Pode dar exemplos de colaborações? 

M. L. :Há colaboração na mesma medida que existe entre outros artistas portugueses, que nos tempos que correm não é assim tão comum. Existe cordialidade e algum acompanhamento entre pessoas do mesmo meio, mas pouco confronto crítico. Isso percorre a arte em geral. Quanto aos artistas africanos, Lisboa tornou-se uma base para muitos artistas de língua portuguesa pois é também uma escala para outras paragens. Nessa relação de continuidade é possível ir criando laços afetivos e de trabalho também.

Em que medida as culturas suburbanas, de jovens de origem africana que já nasceram ou cresceram em Portugal, encontram espaço e influenciam de alguma força?

M. L. :Não me parece que haja grande influência. Portugal é uma sociedade racista, ainda que de forma camuflada. Em termos de vida cultural, sente-se que há muitos festivais que enfatizam o multiculturalismo mas se isso for na vertente cool, inofensivo, não abordando problemas que são óbvios de um país onde se vive declaradamente desigualdades sociais entre negros e brancos.

Quais são os artistas africanos mais conhecidos do público português?

M. L. :O curador Miguel Amado dizia assim numa entrevista: « Já não se procura muito uma arte com uma vertente étnica ou muito ligada a tradições locais, mas tentar encontrar artistas que, mantendo as suas raízes e abordando os problemas dos contextos em que vivem, têm uma linguagem contemporânea, entendível em Luanda, em Lisboa, em Nova Iorque. »
A literatura africana de língua portuguesa tem um forte mercado em Portugal, mas são quase sempre os mesmos nomes: Agualusa, Mia Couto, Germano Almeida.
Alguns artistas visuais que mais expõem por cá são os angolanos Yonamine, Kiluanji Kia Henda, Francisco Vida, Délio Jasse, Ana Silva, Marco Kabenda, António Ole, os santomenses René Tavares e Kwame de Sousa, os caboverdianos Abrão Vicente, Alex Silva, César Schofield Cardoso, Tchalê Figueira, moçambicanos Maimuna Adam, Jorge Dias, Gonçalo Mabunda.
E a fotografia, forma de expressão assinalável em Moçambique, com Ricardo Rangel e a afirmação de uma nova geração com Mário Macilau, Mauro Pinto e Filipe Branquinho.
Na música Nástio Mosquito, Biru, Chullage, Valete, Anselmo Ralph, Yuri da Cunha, Paulo Flores. Na dança António Tavares. No cinema Zézé Gamboa, Leão Lopes. No teatro o grupo Griot, os actores Ângelo Torres, Daniel Martinho, Meirinho Mendes, e o encenador Rogério de Carvalho.
Muitos deles já nasceram depois da independência e já não estão amarrados aos estereótipos do que é suposto ser a arte africana embora, felizmente, também queiram reivindicar outros patrimónios culturais. Depois do colonialismo houve outros momentos muito fortes nas suas vivências como a guerra civil, o pós-guerra, a globalização, a experiência das diásporas, as suas culturas urbanas com várias casas, muita influência pop, embora refiram temas das suas origens, a construção de identidade já não passa só pela nacionalidade.

Vemos a emergência de grandes figuras artísticas desejosas de levar uma mensagem mais politica à sociedade portuguesa (para chamar, por exemplo, a atenção sobre as descriminações, o racismo, os preconceitos, a repressão policial etc)?

M. L. :Não muito, só vejo isso através do rap crioulo que é muito o meio de expressão que incide muito sobre a desigualdade de quem vive nos subúrbios, e uma serie de injustiças. Não acho que haja muita arte explicitamente de intervenção em Portugal, em geral.

Africa esta presente como assunto nos artistas portugueses não africanos (pensemos no Tabu, de Miguel Gomes, na literatura dos retornados) ou é apenas abordada marginalmente?

M. L. :Há um certo fascínio pelo continente africano. Vai sendo cada vez menos misterioso e distante com o novo eixo de mobilidade no trabalho.
Já havia a memória feliz daqueles que viveram a infância nas cidades cosmopolitas de Luanda e de Lourenço Marques ou na grande extensão das províncias em africanas. África, a partir de Portugal, ainda está muito ligada à relação de Portugal com as ex-colónias. Por isso, apesar da manifesta dificuldade de análise do passado colonial (um tabu social ou, do ponto de vista da lusofonia, um orgulhoso reavivar), o passado está muito presente nas vivências, nas redes de poder, na forma de relacionamento, no trato, nas mazelas psicológicas dos ex-combatentes da guerra colonial, no input que os retornados deram à economia portuguesa, e tantas outras questões que sustentam o presente. Há que pensar a fundo este período e ligar as peças com a actualidade.
Em termos de produção cultural há alguns documentos, livros escritos por ex-militares ou filhos de retornados, debates no espaço público, testemunhos, muitas vezes com saudosismo.
Nas artes visuais tem vindo a crescer a reflexão de alguns artistas portugueses (Ângela Ferreira, Filipa César) sobre o passado ligado a África que deixou no Portugal pós-colonial. A mostra de vídeo Do Silêncio a Um Outro Hino, com vídeos dos artistas Daniel Barroca, Jorge Santos, José Carlos Teixeira, Maria Lusitano, Monica de Miranda, Paulo Mendes e Rui Mourão, apresentada no Cabo-Verde em Janeiro de 2013, ilustra bem essa tendência. « Estes 7 artistas fazem parte da primeira geração portuguesa a viver após o fim de um ciclo de mais de 500 anos de « Descobrimentos », « Impérios » e « Colonizações » », explica o comissário da exposição Rui Mourão.

(1) www.buala.org
(2) Sobre este assunto, ler o artigo A « Periferia » a dar musica ao « centro » da cidade, por Vítor Belanciano
Ler aqui na Buala o relatório da exposição.

Lire ici la version française de l’interview.///Article N° : 12920

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