#10 São Tomé e Príncipe: o único PALOP onde não houve guerra de libertação

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Janela n°10. São Tomé e Príncipe: cena artística e comemoração da independência
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Isaura Carvalho trabalha para a CACAU (Casa das Artes Criação Ambiente e Utopias). Responde às nossas perguntas sobre a comemoração dos 40 anos de independência no São Tomé e Príncipe.

Para começar, podia nos apresentar a Casa das Artes Criação Ambiente e Utopias (CACAU) e as suas actividades?
A Casa das Artes, Criação, Ambiente e Utopias foi criada na sequência das atividades desenvolvidas pelo antigo Teia de Arte que foi o primeiro espaço de formação artística e promoção cultural existente em S. Tomé e Príncipe da responsabilidade de João Carlos Silva, um dos maiores promotores e agentes culturais santomenses. A criação da CACAU, também da sua responsabilidade, foi um grande desafio que deu continuidade às atividades do Teia de Arte, acrescentando-lhe outras componentes nomeadamente a educação para a cidadania e para a educação ambiental. Desenvolve atividades artísticas e culturais tais como residências artísticas, exposições, teatro, música, cinema e dança. Promove o intercâmbio cultural e parcerias nacionais e internacionais. O trabalho que desenvolve é multicultural e transversal a todas as gerações e idades.

São Tomé e Príncipe comemorou os 40 anos de independência no dia 12 de Julho. Como é que o Estado comemorou oficialmente este evento?
Com atividades de carácter oficial tendo brindado o povo com manifestações culturais nacionais e estrangeiras.

Teve eventos, palestras, encontros, monumentos, obras de arte implantadas no país, para a comemoração, ao longo do ano?
Houve manifestações promovidas por agentes oficiais da cultura e por entidades particulares que desenvolvem ações nas diferentes áreas artísticas.

Em Cacau, organizaram eventos ou discussões para comemorar isso, ao longo do ano?
Sim. Muitas, tais como encontros, palestras e exposições. Destacamos uma exposição coletiva de arte que envolveu jovens talentos nacionais e a inauguração da Escola de Música.

Dos cinco PALOPs, o único país onde não se fala de « guerra de libertação » é São Tomé e Príncipe. O MPLA, o Frelimo e o PAICG são bem conhecidos do grande público. Ouve também uma guerra desconhecida em São Tomé e Príncipe? Ouve combates físicos ou simbólicos? Quais foram as lutas do MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe)?
Guerras com o mesmo carácter que as dos movimentos citados, não houve em S. Tomé e Príncipe. Mas houve revoltas que opuseram o povo santomense aos colonizadores, que culminou no Massacre de Batepá, em 1953 e o combate ideológico levado a cabo por muitos intelectuais santomenses no pais e no estrangeiro.

Massacre de Batepá que desde 1975, ano da independência, se comemora cada ano no dia 3 de Fevereiro. Podia contar-nos o que aconteceu naquele dia ?
A ausência de incentivos para a integração da elite santomense nas estruturas do poder colonial, a postura discriminatória e repressiva, a rivalidade e disputa existentes entre a elite forra e alguns colonos, a usurpação das terras às populações locais, a recusa aos forros de acederem aos trabalhadores contratados e a tentativa de os obrigar ao trabalho forçado foram progressivamente criando momentos de tensão, principalmente a partir dos anos 50, até levarem à revolta mais expressiva e sangrenta que o arquipélago viveu no século XX – o Massacre de Batepá a 3 de Fevereiro de 1953. Muitos elementos da elite forra – alguns funcionários da administração colonial, desapareceram no campo de presos de Fernão Dias.

Teve obras de artes ou livros sobre este massacre?
Existem alguns estudos e artigos sobre o massacre, mas há, naturalmente necessidade de um estudo mais aprofundado sobre esta questão.

Os serviçais são até hoje a quarta população do pais. Qual é a historia desses migrantes?
A recolonização e o estabelecimento de uma nova ordem económica nas ilhas, a partir do século XIX, foi uma consequência da introdução de dois importantes produtos de exportação – o café e o cacau. Este novo sistema produtivo obrigou a restruturação desta microcolónia africana. Incentivou a criação de novos mecanismos legais de exercício do poder e conduziu a mudanças estruturais na sociedade santomense, já de si marcada pela pluralidade e estratificação da sua população.
A sustentabilidade económica desta colónia de exportação só foi possível graças ao sistema de recrutamento, administração e distribuição de mão-de-obra escrava e depois serviçais contratados, vindos de Angola e Moçambique e mais tarde de Cabo Verde. Este último processo tornou-se frequente a partir 1876, principalmente com a vinda de mão-de-obra de Angola. Surge uma nova categoria social no sistema de estratificação social já existente. Entre 1902-1928 – chegaram a S.Tomé 99 821 trabalhadores contratados. Até 1940, os serviçais constituíam a esmagadora maioria da população em STP. Eram classificados como indígenas e tratados como cidadãos de 2ª classe. O estatuto de contratados ou serviçais representava uma continuidade do sistema esclavagista, embora formalmente detivessem o estatuto de libertos, com contratos que limitavam a 3 anos o seu tempo de permanência em STP. Com a independência o estatuto de « contratado » deixa de existir mas as condições de vida desta população tem-se vindo a degradar fruto da instabilidade política e da ausência de sustentabilidade económica em que o país se vê mergulhado.

Qual é a relação que eles têm com as outras populações do arquipélago? Eles sentem-se Santomenses? Ainda sentem uma pertencia ao seu país de origem?
Julgo que a relação com as restantes comunidades do país é equilibrada, embora pense que vivam uma grande ambiguidade relativamente aos sentimentos que os ligam ao seu país de origem e a S. Tomé e Princípe, este último onde gastaram parte significativa das suas energias.

Essas migrações criaram, até hoje, uma relação especial com os outros PALOPs?
Em meu entender S. Tomé e Príncipe foi, pela sua história, e ainda é um ponto de convergência dos diferentes povos dos PALOPs e esta circunstância facilita naturalmente o diálogo com os países irmãos.

São Tomé e Príncipe têm mais ligação com esses países, que têm uma historia e uma língua comum, ou com os países mais perto geograficamente, como o Gabão, a Guiné Equatorial ou os Camarões?
A língua, a história e a cultura comuns entre os países dos PALOPs facilitam naturalmente o estreitamente das ligações entre os seus povos, mas a relação com os países geograficamente mais próximos de S. Tomé e Príncipe são também relevantes pelas ligações estabelecidas no passado e pelo que representam hoje nas relações político-diplomáticas e económicas.

Quais são os laços de São Tomé e Príncipe com o Portugal hoje em dia? Existe muita emigração para lá? A cultura portuguesa ainda fica bem conhecida dos jovens Santomenses?
Os laços que ligam S. Tomé e Príncipe a Portugal são fortes o que facilita a crescente emigração para Portugal. A cultura portuguesa está presente em quase todas as nossas manifestações a começar pela língua que nos une e naturalmente presente na vida dos jovens santomenses.

Quais são os intelectuais do país que aprofundaram mais a reflexão sobre a história do país, sobre a independência, sobre o que é a identidade do país hoje em dia, etc?
Quase todos os intelectuais santomenses, sem destacar nenhum em particular, têm feito reflexões e abordagens interessantes sobre a história e a identidade do país.

Lire ici la version française de l’interview///Article N° : 13280

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Isaura Carvalho © DR
Exposição colectiva 2015 na CACAU
Exposição colectiva 2015 na CACAU
Abertura da primeira escola de música em 2015
Livro do João da Silva





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