#4 AfrikPlay faz ligação entre a investigação académica e o cinema documental sobre África em Portugal

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Janela n°4 - Diasporas africanas em Portugal, parte n 3: culturas e expressão artística
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Em Lisboa, quem quiser ver cinema sobre África pode fazê-lo todo o ano graças ao ciclo de sessões e debates organizados pelo AfrikPlay. História de uma iniciativa recente que faz a ponte entre o cinema sobre África, investigacão universitária e o grande público em Portugal. Pedro Pombo, um dos três organizadores do AfrikPlay, responde às nossa perguntas.

Quando foi criado o AfrikPlay, e por quem?

O AfrikPlay- Filmes à Conversa começou em 2012, e nasceu de uma conversa entre mim e o João Dias. Na altura eu estava no segundo ano do doutoramento em antropologia e o João integrava o então Centro de Estudos Africanos, no ISCTE-IUL (1). Algum tempo depois, a Marta Patrício juntou-se á equipa, e desde então temos sido os três a organizar o AfrikPlay.

Quais são os principais objectivos do Afrikplay?

O AfrikPlay começou pela nossa vontade de conhecer e divulgar cinema documental sobre a África contemporânea que mostre realidades do continente que fujam aos estereótipos com que África é sistematicamente representada. Como estamos os três ligados aos Estudos Africanos e à Antropologia, quisemos desenvolver uma ligação entre a investigação académica e o cinema documental Deste modo, a intenção inicial, que se mantém, é de termos sempre um espaço para debate e conversa em torno do filme apresentado, normalmente com um investigador cuja pesquisa se relacione com o filme. Por isso, o AfrikPlay começou na nossa universidade, o ISCTE-IUL, na tentativa de abrir a investigação académica ao grande público e de, através dessa ligação, dar a conhecer e a entender realidades que, por vezes, necessitam de uma contextualização para que se libertem dos preconceitos que diariamente são utilizados em relação a África. Deste modo, organizamos diversos ciclos ao longo do ano, onde cada filme é comentado por um convidado e onde é aberto espaço ao diálogo e ao debate com o público.

A vossa programação concentra-se na África Lusófona, ou está aberta a todo o continente?

Uma das primeiras decisões que tomámos em relação à selecção dos filmes foi não seguir qualquer divisão do continente, quer linguística, quer geográfica ou cultural. O nosso objectivo de trazermos novas perspectivas sobre África começa na própria selecção, organizada por temas, integrando a diversidade do continente em vez de seguir divisões linguísticas, geográficas ou culturais.

Como se articula a vossa programação? Seleccionam filmes lançados durante cada ano, ou acolhem igualmente filmes mais antigos?

Os diversos ciclos que organizamos organizam-se usualmente por temas como, por exemplo, migrações e fronteiras, música no quotidiano ou performances e rituais. Temos selecionado filmes recentes, pela intenção de oferecer ao público realidades contemporâneas do continente africano. Apesar de não nos restringirmos aos filmes lançados em cada ano, temos a atenção de procurar e selecionar obras que transmitam novos modos de filmar e que nos mostrem contextos actuais.

O AfrikPlay é único nas suas características, ou existem outros festivais equivalentes, em Portugal?
Em Portugal, o AfrikPlay é, pelas suas características, uma iniciativa única. Quer pela selecção dos filmes, quer pelos debates que sempre acompanham a projecção dos filmes, quer pela periodicidade. Optámos por organizarmos diversos ciclos ao longo do ano, em vez de nos concentrarmos num curto período do ano, como os festivais o fazem. Deste modo, o público pode acompanhar ao longo do tempo os filmes que trazemos a Lisboa e, neste momento, temos já um público fiel que enche cada sessão de cinema que organizamos.
Fora de Portugal, até ao momento não enconámos iniciativas semelhantes. Existem alguns festivais de cinema africano, ou cinema documental sobre África, alguns deles organizados por universidades ou centros de investigação. Mas o AfrikPlay tem organizado ciclos sistemáticos e bastante bem estruturados ao longo do tempo desde 2012, incidindo sobre temas muito diversos e trazendo contextos de muitos países diferentes do continente africano. Nesse aspecto, temos orgulho em afirmarmos que o AfrikPlay é único. Estamos no quarto ano de existência, temos uma já vasta selecção de filmes exibidos, sobre os mais diversos países do continente africano, e em que o público participa activamente nas conversas que se seguem a cada projecção. Muitos dos filmes tiveram estreia em Portugal através do AfrikPlay, alguns dos quais com a presença dos realizadores, o que para nós é motivo de alegria.

Os filmes africanos (lusófonos ou não) têm lugar na programação das salas de cinema portuguesas, ou fazem parte de um nicho de mercado, apenas representados em festivais?

O cinema africano tem um lugar muito reduzido nos cinemas portugueses. Com muito poucas excepções, a cinematografia, maioritariamente oriunda de países lusófonos, tem uma reduzida visibilidade. Nos últimos anos alguns festivais e iniciativas culturais dedicadas aos países africanos de expressão portuguesa têm trazido obras cinematográficas recentes a Portugal. No entanto, o cinema africano continua quase inexistente nas salas portuguesas.

O seu público é composto principalmente por estudantes universitários, ou conseguem atrair o « grande público »? Africanos, ou pessoas de origem africana, constituem uma parte significativa do vosso público? Existe uma evolução de público a cada edição?

No ano passado, iniciámos uma parceria com a Largo Residências, uma associação cultural sediada no Largo do Intendente, no centro de Lisboa, e parte de um conjunto alargado de iniciativas que têm transformado profundamente o bairro onde se localiza. Saímos da universidade, onde o AfrikPlay acontecia, ao encontro de um público bastante alargado, o que nos deixa bastante satisfeitos. As sessões estão geralmente muito cheias, e atraem um público muito variado, que tem em comum o interesse por descobrir uma África diferentes daquela que os media transmitem. A população de Lisboa originária do continente africano, ou descendente de africanos que aqui vivem, tem estado presente nas nossas sessões, que acompanham um mais alargado interesse pela arte e cultura dos vários países africanos, especialmente daqueles que estão representados em Lisboa através da sua população.
A mudança do AfrikPlay para a Largo residências provocou uma mudança muito significativa, e muito positiva, para o AfrikPlay: público alargado, sala cheia, debates muito participados, e uma maior visibilidade dos nossos ciclos.

Como é que a sociedade portuguesa acolhe estas iniciativas? Constatam uma abertura e uma maior curiosidade por África agora do que há duas décadas?

A presença africana em Lisboa, e em Portugal, tem tido uma maior visibilidade nos últimos anos. Acompanhando o que observamos no resto do mundo, particularmente na Europa e nos Estados Unidos, o continente africano é motivo de curiosidade, interesse e valorização das suas expressões artísticas. África está na moda, o que traz muitas coisas positivas, mas também pode trazer novamente estereótipos sobre o que é « africano ». O AfrikPlay faz um esforço para abrir um espaço de questionamento e reflexão sobre os contextos do continente africano.
De modo geral, a sociedade portuguesa, especialmente as novas gerações, está aberta a conhecer melhor o continente africano. Estamos num tempo importante, porque podemos finalmente repensar a relação de Portugal com África, e podemos enfrentar a história do país e das suas ex-colónias sem cairmos em dualismos redutores.

Quais são os principais financiadores do AfrikPlay?

O AfrikPlay tem funcionado sem financiamento. Desde o início que decidimos arriscar e ver se seria possível apresentarmos filmes sem ter qualquer espécie de financiamento. Conseguimos provar que é possível, com bastante trabalho e dedicação. Todas as sessões são abertas a todos e gratuitas. E, curiosamente, tem sido o facto de o AfrikPlay ser gratuito que nos tem permitido crescer. Os realizadores e produtores dos filmes que exibimos têm sido extremamente generosos connosco, porque reconhecem o interesse que o AfrikPlay tem tido. Para nós é muito gratificante perceber que conseguimos apresentar filmes, muitos deles em estreia em Portugal, termos convidados para os debates que sempre se seguem às sessões de cinema, termos público e reconhecimento, sem termos financiamento. Temos tido a capacidade de suscitar interesse para que nos tenham sido propostas parcerias que nos têm possibilitado crescer. Obviamente que para o AfrikPlay crescer em dimensão e poder trazer mais realizadores a Lisboa é necessário financiamento. Temos estado a trabalhar nesse aspecto, porque gostaríamos de contar com mais sessões com a presença dos realizadores. Mas o AfrikPlay prova que é possível realizar uma iniciativa consistente mesmo em condições adversas. E estamos orgulhosos e bastante felizes com o temos sido capazes de fazer nestes quatro anos, e agradecidos ao público que tem enchido as nossas sessões.

(1) ISCTE-IUL : Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa. http://www.iscte-iul.ptLire ici la version française de l’interview.///Article N° : 12924

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Pedro Manuel Pombo © DR
Le réalisateur Carlos Agullo,venu présenter à AfrikPlay lors du Mandela Day 2014 son documentaire Plot for Peace sorti pour la première fois au Portugal. © DR





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