#6 « Era necessário refazer uma ponte cultural entre a África e o Brasil »

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Janela n°6 - Relação Brasil/África, parte n°2: novos laços?
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Desde 2009, o Back2Black Festival reúne cada ano, no Rio de Janeiro, artistas africanos, afro-brasileiros, e da Diáspora africana do mundo inteiro. Connie Lopes, organizadora e curadora do festival, conta a história do festival e a evolução das relações entre artistas brasileiros e africanos.

Podia lembrar-nos as origens e os objectivos do festival Back 2 Black ? Quem criou o festival, em que momento e com que intenção?
Fundamos a empresa Zoocom em 2008 e éramos 3 sócios – eu – Connie Lopes, a jovem empreendedora Julia Otero e o publicitário Silvio Mattos. Criamos este festival juntos. Em 2009 fizemos a primeira edição. Foi um sucesso!
Desde 2012 assumi a empresa sozinha assim como o festival. Tenho também um parceiro (não sócio) que até hoje é um grande ‘amigo do B2B’, faz a curadoria das conferências e sempre participa de forma muito ativa. Trata-se do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Evidentemente outras pessoas também foram muito importantes nessa construção. Cito as diretoras de arte Bia Lessa e Daniela Thomas com quem gostei muito de trabalhar. A arte é parte importante do festival.
O festival foi criado pela necessidade de refazer uma ponte cultural entre a África e o Brasil. O Brasil ignorou durante muito tempo a África. A intenção também era glamourizar a cultura negra e enaltecer o orgulho dos afro-brasileiros.

A programação do festival centra-se mais em artistas africanos ou em artistas afro-brasileiros?
Em ambos e também em outros artistas das diásporas. Todos são fundamentais para o sucesso do festival.

Podia, por exemplo, dizer-nos quem foram os artistas principais da edição de 2015 do festival em Março?
Stromae, Damian Marley, Angelique Kidjo, Planet Hemp e Lenine & Orkestra Rumpilezz levaram mais gente mas todos foram importantes. Foi muito legal ter trazido a Marrabenta pela primeira vez ao Brasil.

Quais são as principais vitórias do festival durante todos estes anos ? Do que é que se sentem mais orgulhosos ?
A cultura africana contemporânea era totalmente desconhecida no Brasil. Temos sido pioneiros na apresentação dos principais artistas africanos no Brasil : Youssou N’Dour, Hugh Masekela, Oumou Sangaré, Sean Kuti, Nekka, Asa, Tinariwen, Toumani Diabaté e muitos outros vieram pela primeira vez ao Brasil através do B2B. Depois disso muitos já voltaram e alguns já fizeram projetos com artistas brasileiros. As celebrações e os encontros que promovemos entre africanos e brasileiros foram muito importantes.
Hoje venho recebendo constantemente informações e pedidos de artistas africanos querendo participar do festival. Eles sentiram quanto o Brasil e não só a Europa pode acolhe-los. Cito exemplos de artistas como Nneka e Keziah Jones voltaram ao Brasil, participaram do carnaval, buscam colaborações. O Rock in Rio convidou Angelique Kidjo.
O festival provou o interesse dos brasileiros e podemos dizer que fizemos história nesse sentido. Os africanos já começam a fazer parte das programações de festivais e eventos brasileiros e já começam iniciativas parecidas.

Podia citar algumas dessas colaborações entre artistas africanos e brasileiros?
Arnaldo Antunes e Toumani Diabaté gravaram disco e DVD juntos. Maria Bethânia quer produzir disco com Angelique Kidjo. Fizemos uma extraordinária homenagem ao blues com músicos do Mississipi, Mali e Brasil. Todos se identificaram. Fizemos um tributo a Miriam Makeba com músicos brasileiros e africanos. Com os lusófonos tivemos também belos encontros como os jovens compositores Aline Frazão e Toty Sa’Med de Angola com a brasileira Natasha Llerena. Estou certa que muitos ainda irão fazer grandes parcerias. Vamos persistir e continuar.

Quais são os principais desafios ainda por superar?
As principais dificuldades que ainda sentem persistir? Os patrocínios – fazer as empresas brasileiras entenderem quanto este movimento se tornou importante. Conseguir mais investimentos para levar adiante outras propostas e outras ramificações do festival tais como residências entre africanos e brasileiros, filmes, etc.. Tornar este intercâmbio cada vez maior e também levar o festival a outros países principalmente os africanos. Para isso precisamos de investimento.

Em que medida esta valorização pode lutar contra o racismo e os preconceitos raciais no Brasil ?
O festival reune hoje um público de 50% de brancos e 50% de mestiços e negros. Isso não acontecia nas primeiras edições mas estou certa dessa valorização do negro e sei que isso contribui em certa medida para a luta contra os preconceitos raciais.

Qual é a imagem que os brasileiros têm de África nos dias de hoje ? É muito diferente da imagem que tinham há 15 anos atrás ?
Sim, é bem diferente! Hoje conhecem uma África moderna. Há 15 anos atrás a grande maioria conhecia uma África folclórica.

Os brasileiros negros são conscientes das influências africanas na sua cultura, incluindo o contexto contemporâneo ? Ouvi falar, por exemplo, de autores do funk brasileiro que descobriram com surpresa o Kuduro e as semelhanças com o seu próprio universo musical (tanto em termos rítmicos como na dança e na prática…)
Sim sempre tiveram, mas essa reaproximação foi fundamental para entenderem melhor a cultura contemporânea.
O festival já reuniu en diversas ocasiões bailarinos de funk, passinho e kuduro. O kuduro sempre surpreende o pessoal do funk. Eles são muito bons.

O Brasil serve, as vezes, de contrapeso à influência portuguesa no domínio das artes, na África lusófona. Por exemplo, na literatura, um autor africano lusófono pode publicar e ser reconhecido internacionalmente através de editoras brasileiras, sem ter necessariamente ligações directas com Lisboa – por exemplo, no campo da francofonia, Paris ainda se mantém como placa giratória fundamental para um autor francófono.
Poderiam dar exemplos deste fenómeno, não apenas na literatura mas também noutros campos artísticos ?

Os escritores Mia Couto e José Eduardo Agulusa são importantíssimos na nossa literatura. Embora também sejam muito conhecidos e reverenciados em Portugal, não conquistaram o público brasileiro por influência portuguesa mas por terem em suas escritas grandes referências do Brasil e de alguns escritores brasileiros. O kuduro também veio direto de Angola para o Brasil. Repito, os brasileiros só recentemente voltaram a olhar a África. Movimentos como o B2B contribuíram muito para isso assim como outras iniciativas. É muito bom que isso esteja finalmente acontecendo.

Fala-se muito pouco de um pan-americanismo lusófono, como se o Brasil nunca tivesse tido nas Américas um papel semelhante ao que os Estados Unidos ou as Caraíbas tiveram, nos mundos anglófonos e francófonos, para a afirmação de uma identidade e pensamento político negro. Existem exemplos do oposto que nos possam dar? Pensam que se assiste hoje em dia a uma forma contemporânea de pan-africanismo lusófono, através dos laços políticos e intelectuais que o Brasil tem construído com África, ou através de iniciativas como a vossa?
As políticas culturais brasileiras se fecharam durante bastante tempo. O intercâmbio era Europa e Estados Unidos. Em 2008 quando Gilberto Gil e o Governo Lula assumiram essa afirmação começou a se tornar real. O nosso atual Ministro da Cultura, Juca Ferreira, quer dar continuidade a essa política e está trabalhando em várias iniciativas. Vamos torcer para que isso se torne uma afirmação de identidade daqui para a frente.

Lire ici la version française de l’article #6 « Il était nécessaire de rétablir un pont culturel entre l’Afrique et le Brésil »///Article N° : 13044

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© Ilan Pellenberg, pour la Cidade das Artes, agence OitoeOito
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© Back2BlackFestival
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